segunda-feira, 5 de abril de 2010

Lixo ou Luxo na Cibercultura?: Origens e atualidades da Cultura "Digital Trash"

Lixo ou Luxo na Cibercultura?:
Origens e atualidades da Cultura “Digital Trash”
Por André Lemos.

O trabalho resenhado foi publicado in Pereira, Vinícius A, (org), Cultura Digital Trash: Linguagens, Comportamentos e Desafios., Rio de Janeiro, E-Papers, 2007, e é baseado no artigo “Cibercultura Punk”, CULT, n. 96, "Dossier PUNK", outubro de 2005, do mesmo autor.

A cibercultura é abordada sob o prisma do movimento ciberpunk, baseado no princípio do “faça você mesmo”. A tese proposta é que a liberação de emissão de informação, própria da cibercultura e comumente tachada de lixo digital, é na verdade o luxo da cultura: “a gigantesca e diversificada produção de informação, acessível globalmente”.

O artigo traça as origens da cultura digital trash (lixo digital) baseada no movimento punk na década de 1970 na Inglaterra, na contracultura, e em obras de ficção científica na literatura e no cinema. Com a crescente democratização e sofisticação da tecnologia de computação surgem os ciberpunks reais, que invadem sistemas e produzem vírus, unindo o antiautoritarismo punk e o uso intensivo da tecnologia digital.

O autor propõe que a herança punk criou: a micro-informática nos anos 70, o movimento de ficção ciberpunk nos anos 80, os ciberpunks reais e neste século, podcasts, blogs, etc., todos marcados pelos três princípios gerais da cibercultura: emissão, conexão e reconfiguração (emita, distribua, modifique). Estes três princípios são aplicados para várias modalidades de comunicação, tal como os podcasts (emissões sonoras), blogs (emissões pessoais), redes p2p (peer to peer — entre pares), softwares de código aberto.

O excesso de informação da cultura digital pode ser considerado como lixo. Por outro lado ele permite o luxo da escolha, o luxo da garimpagem, sem a interferência ou mediação da indústria de cultura de massa (editoras, gravadoras, jornais, revistas, televisão, rádio).

O enfoque do artigo ao buscar as origens da cultura “digital trash” no movimento punk é, talvez, limitante, apesar de encontrar um antecedente na literatura ciberpunk de ficção científica. Pelo menos desde a década de 1950 outros movimentos de oposição à cultura de massa e às convenções sociais surgiram nos Estados Unidos e Europa, como os beatniks e os hippies. Numa perspectiva histórica mais ampla, a reação às convenções sociais e o sentido de comunidade lembram movimentos utópicos e anárquicos do século XIX.

Outro aspecto que poderia ter sido explorado é a presença marcante de grandes empresas (IBM, Apple, HP, Google, Microsoft, etc.) na criação do hardware e software que possibilitaram o desenvolvimento da cibercultura. A imensa quantidade de informação disponível no espaço virtual, é lixo, de fato, se não tivermos ferramentas (processadores potentes e máquinas de busca) para recuperar, organizar, difundir a informação bruta e permitir a conectividade entre os usuários.

Aparentemente dirigido ao público em geral e não a uma audiência especializada, o artigo peca pelo uso excessivo de termos e conceitos em inglês que não são devidamente definidos quando introduzidos no texto, como copyleft, p2p, cypherpunks, zippies, etc. Isto é particularmente aplicável para contextos em rápida mutação, como a cibercultura.
O autor, Andre Luiz Martins Lemos, é doutor em Sociologia e Professor Associado da Faculdade de Comunicação da UFBa.
Ana Tereza e Sibeli Abreu

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