terça-feira, 6 de abril de 2010

O "EU" NO TWITTER – A AUTOBIOGRAFIA NO MICROBLOG

Já passou o tempo em que as pessoas registravam suas reflexões e escritas do cotidiano em cadernos ou agendas também denominados de "diário". Eram registros íntimos e secretos, escrito para si próprio e com acesso a pouquíssimas pessoas.

Atualmente, o "diário" foi substituído pelos blogs e microblogs da internet, a exemplo do Twitter, e estão cada vez mais expostos ao público. Mas o que motivou essas pessoas a deixarem de escrever em seus "diários" de anotações íntimas e restritas para relatar seus episódios onde o acesso e a visibilidade são possibilitados a todos que utilizem a internet?

De acordo com a famosa premissa de Marshall McLuhan, onde o meio é a mensagem, o próprio meio onde é construído a mensagem acaba alterando a própria mensagem, a sua forma de escrita. Ou seja, o que poderia ser apenas uma evolução dos "diários" com a mudança do suporte da escrita íntima para a internet (redes), é também uma nova forma na construção dessa escrita. A autobiografia.

A autobiografia é a narrativa que conta a vida do autor. Phelippe Lejeune conceitua a autobiografia como "a narrativa retrospectiva em prosa que alguém faz de sua própria existência, quando focaliza especialmente sua história individual, em particular a história de sua personalidade". Para Lejeune, a autobiografia está virtualmente concluída desde o começo enquanto que o antigo diário mantém uma leitura programada com um começo demarcado por uma data, e sem um fim, já que não se pode imaginar como serão escritas as últimas páginas.

Nessa transição entre deixar de escrever seu diário no caderno e passar a escrever no diário da web, o autor (autobiográfico) passa a sentir uma necessidade de ser lido por outras pessoas, de compartilhar e interagir o que está escrevendo. Essa necessidade pode ser definida, segundo Castells, como o novo modelo organizacional da chamada Era da Informação: a rede. A partir da rede ainda se criou, ou moldou, um novo modelo de sociabilidade dentro dessa sociedade: as chamadas Redes Sociais.

Dentre as redes sociais um microblog vem alcançando um número cada vez maior de adeptos no mundo inteiro e pode ser dado como exemplo de exposição autobiográfica na rede. É o Twitter. A proposta inicial de construção das mensagens colocadas no Twitter parte de uma pergunta presente na página inicial do site, que é: "What are you doing?" (O que você está fazendo?). No Twitter os participantes (autobiográficos) são seguidores de outros participantes e possuem seus próprios seguidores também, que recebem voluntariamente todos os seus posts. Daí surge o exercício da necessidade de ser e existir, onde é possível identificar a construção de uma nova forma de escrita citada anteriormente. Os autores falam de si, expõem suas opiniões, links favoritos, fazendo com outros participantes interajam, criando assim o seu perfil e a personalização do seu ciberespaço. É nessa personalização que se manifesta a formação do "eu" dentro do ciberespaço.

A proposta do Twitter inicialmente é: "pontuar em poucas palavras o entorno do diarista." A democracia oferecida pelo Twitter atrai as pessoas a exercitarem as escritas cotidianas. É um espaço onde celebridades e anônimos podem coexistir num mesmo ambiente e escrever o que está fazendo naquele momento. É um espaço onde as pessoas se sentem mais a vontade para expor suas intimidades. Devido ao distanciamento entre o escritor (twitteiro) e o leitor (seguidor), o medo de ser julgado ou reprimido diminui se comparado ao que aconteceria com uma pessoa próxima.


Bruno Cardoso e Ives Emidio



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